A EDUCAÇÃO NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA - Jornal Abertura 2017

Roseli Regis dos Reis


Vivemos um momento humano de profundas rupturas e polarizações, o que requer daqueles que ensejam manter alguma lucidez certo distanciamento para o exercício da crítica. Tomar a Educação como objeto de nossas reflexões pode ser um caminho para compreender melhor os paradigmas que balizam nossa vida em sociedade e o lugar do espiritismo no contexto da contemporaneidade.  

Todos nós desenvolvemos relações pedagógicas com as crianças, e alguns de nós o fazemos de forma mais sistemática dentro das Casas Espíritas, engajando-nos no ensino do espiritismo. Entretanto, já nos questionamos suficiente ou adequadamente sobre quem são essas crianças? Com quem exatamente estamos lidando? Que valores sociais elas expressam? Conhecer, demarcar e pensar sobre as mudanças em curso - identificando as peculiaridades desse momento histórico - é, a meu ver, fundamental para o direcionamento de nossas ações.

Neste exercício, proponho, inicialmente, que abdiquemos de uma ideia naturalizante de Infância, que a considera uma fase natural do desenvolvimento humano, com características universais e inerentes a essa etapa da vida. E que, ao contrário, a encaremos como uma construção sócio-histórica. E mais, que a situemos como uma invenção da era Moderna, em que corpos dóceis e úteis deveriam ser transformados em sujeitos equipados para funcionar com eficiência dentro do projeto histórico do capitalismo industrial.

Esse raciocínio de pronto nos coloca diante da seguinte realidade: cada sistema produz os sujeitos dos quais se alimenta. E nos remete, portanto, à urgência de observarmos que tipo de Infância é estruturada pela atual faceta de consumo desse capitalismo mais astuto que hoje nos abarca.

Uma evidente mudança percebe-se no fato de que a criança que antes era trabalhada e preparada para o futuro – portanto frágil e incompleta, imatura, irracional, incompetente – passa a ter uma existência concreta no hoje. Para ser um consumidor, agora – ou, para ser um indutor de consumo na família –, a criança tem que ter uma vida própria, tem que ter necessidades presentes, vontades imediatas e opiniões contundentes. Ou seja, uma criança que “sabe das coisas”, que é capaz de escolher, opinar e consumir.

As implicações derivadas da emergência desses novos sujeitos se fazem sentir de forma bem evidente no âmbito da Educação: se no novo modelo as crianças são concebidas como seres plenos, professor e escola para quê? Aliás, “pais” para quê? A necessidade e o alcance da Educação são imediatamente postos em xeque.

Não há dúvidas de que o equilíbrio de poder entre as gerações sofreu mudanças substanciais e isso afeta fortemente as relações pedagógicas travadas na sociedade. No modelo anterior, o mundo dos adultos (os pais, os mestres, os diretores, os "bedéis", etc.) praticamente monopolizava o poder nas instituições. Na atualidade, ainda que as relações intergeracionais continuem sendo assimétricas, pendendo para o lado dos adultos, esta assimetria se modificou profundamente em benefício das novas gerações. É preciso tomar nota dessa realidade ao se pensar na reestruturação dos processos educativos.  A autoridade pedagógica, entendida como reconhecimento e legitimidade, continua sendo uma condição estrutural necessária da eficácia de toda ação pedagógica. Hoje, porém, o adulto educador tem que construir sua própria legitimidade entre os educandos.

A Infância do século XXI nos confronta com as escolhas que fizemos como Humanidade. Desvelam um mundo voltado para relações de consumo, individualistas, que perde de vista a dimensão coletiva da existência e caminha no sentido da autodestruição. Reafirmar o paradigma da espiritualidade, da dimensão da imortalidade da alma e sua relação com o mundo, pode ser um bom antídoto para retirar alguns da letargia ou desacelerar a imensa maioria nessa corrida rumo à barbárie em que nos metemos. Mas requer, antes de tudo, uma apreensão crítica dos obstáculos que se impõem, das causas que os sustentam e dos caminhos que se afiguram no horizonte.


Roseli Régis dos Reis é casada, mãe de quatro filhos, Professora universitária, Pedagoga, Mestre e Doutora em Educação pela PUC SP, Presidente e Diretora do Departamento de Infância  do Centro Espírita Allan Kardec em Santos/SP e Membro do CPDoc

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O CPDOC Iniciou suas atividades em 1988, fruto do sonho de jovens espíritas interessados na inserção da crítica coletiva como prática estimuladora ao aperfeiçoamento dos trabalhos.

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