No último webcurso de filosofia e espiritismo promovido pelo CPDOC, do qual fui monitor responsável, tivemos uma instigante discussão sobre a natureza do espiritismo. Ressaltei, para os alunos do curso, que Kardec não desejava criar uma nova religião, segundo suas precisas conceituações.

Trouxe as definições de Allan Kardec a respeito do tema. Refleti sobre as características das religiões, as quais não se adequam à proposta da doutrina kardecista, tais como: dogmas, livros sagrados, sacerdotes, privilégio da fé em detrimento da razão, etc.

No entanto, alguns alunos discordaram desta concepção não religiosa de espiritismo, e apontaram a obra de Francisco Cândido Xavier, como referência fundamental no que diz respeito à compreensão da natureza do espiritismo. Segundo argumentaram, espíritos como Emmanuel e outros deixaram claro que o espiritismo era, sobretudo, uma religião.

Devo confessar que chamou muito a minha atenção o fato de alguns estudantes do webcurso entenderem que as opiniões emitidas por alguns espíritos, através da psicografia de Chico Xavier, deveriam prevalecer até mesmo sobre os textos e definições de Allan Kardec.

Esta situação me fez refletir sobre a importância do famoso médium mineiro para o espiritismo e, particularmente, para os espíritas brasileiros. No presente artigo, procuro trazer um pouco da reflexão que fizemos naquele momento.

É fora de dúvida que Chico Xavier foi um poderoso médium, um ser humano excepcional, alguém que fez de sua vida um exemplo de caridade e humildade. É, também, de uma evidência cristalina, que ele contribuiu poderosamente para o avanço do espiritismo no Brasil e mesmo no mundo.

No entanto, argumentei que isto não deveria ser motivo para transformarmos em dogma de fé a sua obra psicográfica. E nem para mitificarmos a sua pessoa. Se assim o fizermos, estaremos renunciando à nossa condição de espíritas. Aliás, para bem compreendermos o fenômeno Francisco Cândido Xavier, é necessário que conheçamos o espiritismo.


Afirmei, que o espiritismo vai além de Chico Xavier. Na verdade, o famoso médium brasileiro representa apenas um capítulo na história do espiritismo. Um capítulo importante, sem dúvida. No entanto, o espiritismo terá novos capítulos, novos médiuns, novos pesquisadores, novas lideranças, novos pensadores, que irão contribuir com a doutrina, que também colocarão seu tijolo neste edifício chamado espiritismo.

Por outro lado, quando olhamos para o passado, observamos na história do espiritismo francês e do novo espiritualismo norte‐americano, uma galeria de médiuns importantes, que ajudaram a construir a ideia da sobrevivência da alma e sua possível comunicação com o mundo terrestre.

De fato, existem algumas informações discutíveis na obra de Chico, mas isto não lhe é demérito algum. Ele foi apenas um intermediário, certamente que dotado de dilatadas capacidades mediúnicas. Os espíritos que se manifestaram por sua mediunidade, exprimiram suas opiniões pessoais, seus específicos pontos de vista sobre vários assuntos, sobre vários temas, inclusive, sobre a definição de espiritismo.

Ponderei, que existe muita paixão em torno do médium . No entanto, penso que não precisamos ser contra ou a favor de Chico, defensores ou negadores de sua obra. Não precisamos idolatrá‐lo e nem sermos críticos ferrenhos de algumas impropriedades contidas em seus escritos.

A obra psicográfica de Francisco Cândido Xavier está no mundo, e estará sujeita, naturalmente, às análises críticas que o pensamento pode realizar. E é assim que tem que ser dentro de uma proposta genuinamente kardecista, que leva em consideração o livre exame de todas as matérias.

Ricardo de Morais Nunes: Tem formação em Direito e Filosofia. É delegado daCEPA no Guarujá. Monitor responsável pelo webcurso de Filosofia e Espiritismo e um dos colaboradores do webcurso de espiritismo, ambos promovidos pelo CPDOC.

Os artigos desta coluna baseiam‐se em estudos e pesquisas desenvolvidos pelo CPDOC. www.cpdocespírita.com.br/contato@cpdocespírita.com.br.

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