Eugenio Lara

No tempo de Allan Kardec, bom senso era sinônimo de razão, do reto pensar, componente indis-pensável em qualquer investigação filosófica, racional e científica. Desde Descartes até o Positi-vismo, bom senso é equivalente à razão, à lógica. Era assim que Kardec compreendia o bom sen-so.

Hoje, bom senso não é somente uma questão de QI (quociente de inteligência), de uso exclusivo do pensamento racional. Bom senso também significa prudência, bom juízo, senso de orientação correto – “se oriente, rapaz, pela Constelação do Cruzeiro do Sul”, diz a bela canção de Gilberto Gil – uma questão de inteligência emocional bem desenvolvida, ideia esta que não existia no sé-culo 19.

Inteligência Emocional é conceito recente no campo da Psicologia, aplicado a partir da década de 1990 para designar e classificar atividades não-cognitivas. O termo foi popularizado pelo psicó-logo e jornalista norte-americano Daniel Goleman, da Universidade de Harvard, autor de livro homônimo.

Um sujeito extremamente inteligente, com QI acima da média, pode ser um desastre do ponto de vista emocional. Apesar de extremamente inteligente é emocionalmente burro. Não consegue lidar com seus próprios sentimentos, menos ainda com os sentimentos alheios. O indivíduo com essas características pode se tornar um flagelo social, tornando-se sociopata, sem nenhum tipo de empatia para com as emoções alheias. É frio, calculista, sem sentimento. É capaz de demonstrar amor por um objeto pessoal, alguma ideologia ou animal de estimação, mas insensível e incapaz de expressar suas emoções nas relações interpessoais. A distância entre o sociopata e o psicopata é muito tênue.

Desde que surgiu, o conceito de Inteligência Emocional vem sendo aplicado de diversas formas, principalmente no campo da literatura de autoajuda. A enxurrada de livros com essa temática vem invadindo o mercado livreiro, com conceitos que poderíamos classificar de pseudocientífi-cos, ainda que sejam explanados em nome da ciência e da razão.

Segundo o psicólogo Daniel Goleman:

“Homens com um alto grau de inteligência emocional são socialmente equilibrados, comunicati-vos e animados, não inclinados a receios ou a ruminar preocupações. Têm uma notável capacida-de de engajamento com pessoas ou causas, de assumir responsabilidades e de ter uma visão ética; são solidários e atenciosos em seus relacionamentos. Têm uma vida emocional rica, mas correta;


sentem-se à vontade consigo mesmos, com os outros e no universo social em que vivem.” (Inteli-gência Emocional - cap. 3 – Ed. Objetiva).

Descrição semelhante faz Allan Kardec acerca do homem de bem, sinônimo de verdadeiro espíri-ta:

“Verdadeiramente, homem de bem é o que pratica a lei de justiça, amor e caridade, na sua maior pureza. Se interrogar a própria consciência sobre os atos que praticou, perguntará se não trans-grediu essa lei, se não fez o mal, se fez todo bem que podia, se ninguém tem motivos para dele se queixar, enfim se fez aos outros o que desejara que lhe fizessem.

“Possuído do sentimento de caridade e de amor ao próximo, faz o bem pelo bem, sem contar com qualquer retribuição, e sacrifica seus interesses à justiça.”

“É bondoso, humanitário e benevolente para com todos, porque vê irmãos em todos os homens, sem distinção de raças, nem de crenças.”

Respeita, enfim, em seus semelhantes, todos os direitos que as leis da Natureza lhes concedem, como quer que os mesmos direitos lhe sejam respeitados.” (Allan Kardec - O Livro dos Espíritos - q. 918 – FEB).

Hoje, não se pode fazer uma análise comportamental isenta sem considerar as emoções em jogo. Desde Freud que as emoções, as forças poderosas do inconsciente muitas vezes são determinantes no móvel das ações humanas. De modo que a expressão homo sapiens deixa de ser a definição correta e abrangente para definir o biótipo humano. O ser humano não é somente pensante, ele é quase todo sensação, emoção. A razão é limitada para se entender e definir o comportamento humano.

Poderíamos afirmar, parafraseando Allan Kardec, que o Espiritismo é uma questão de Razão e Inteligência Emocional. Ou seja, apesar de sua primazia, a Razão não é suficiente para se enten-der e praticar o Espiritismo. É necessário também e, fundamentalmente, o equilíbrio emocional, a justeza de caráter, o autoconhecimento. Em suma, é preciso ser Emocionalmente Inteligente para se compreender o Espiritismo em toda sua plenitude.

Eugenio Lara, arquiteto e designer gráfico, reside em São Vicente - SP - E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Os artigos desta coluna baseiam-se em estudos e pesquisas desenvolvidos pelo CPDoc. www.cpdocespirita.com.br / Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

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