ESPIRITISMO E EDUCAÇÃO SOCIAL - Jornal Abertura de Agosto de 2019

Jacira Jacinto da Silva1

e Mauro de Mesquita Spinola2



“Um sorriso quando precisaria ser sério; uma fraqueza quando seria preciso ser firme; a severidade quando seria preciso a doçura; uma palavra sem pensar, um nada, enfim, bastam às vezes para produzir uma impressão indelével e para fazer germinar um vício. Que se passará então quando essas impressões forem ressentidas desde o berço, e frequentemente durante toda a infância? Nesse aspecto, o sistema de punições é uma das partes mais importantes a serem consideradas na educação; pois elas são comumente a fonte da maior parte de defeitos e vícios.”3


A necessidade e a premência da educação são bandeiras unânimes na sociedade moderna, reconhecida como paradigma tanto de progresso individual quanto de efetiva democracia e dignidade social. A partir do século XIX, consolidou-se com mais força a defesa iluminista da educação universal, laica e livre, como um direito de todos e ao mesmo tempo um instrumento imprescindível ao desenvolvimento econômico e social.

Hyppolite Rivail, o educador, e Allan Kardec, o fundador do espiritismo, as duas faces de um mesmo pensador, tiveram na educação a sua principal linha de pensamento. Para Kardec, a educação resumia todo o processo de evolução do espírito encarnado. Na sua mais explícita abordagem sobre o tema, mostra o valor da educação moral:

“Há um elemento, que se não costuma fazer pesar na balança e sem o qual a ciência econômica não passa de simples teoria. Esse elemento é a educação, não a educação intelectual, mas a educação moral. Não nos referimos, porém, à educação moral pelos livros e sim à que consiste na arte de formar os caracteres, à que incute hábitos, porquanto a educação é o conjunto dos hábitos adquiridos. (...) Quando essa arte for conhecida, compreendida e praticada, o homem terá no mundo hábitos de ordem e de previdência para consigo mesmo e para com os seus, de respeito a tudo o que é respeitável, hábitos que lhe permitirão atravessar menos penosamente os maus dias inevitáveis.”4

É certo que o acesso à educação progride em todo o mundo, embora em ritmo muito inferior ao que idealizaram Kardec e outros grandes pensadores de seu século e mais recentes. Os problemas são ainda imensos. Temos no Brasil, em particular, uma já enorme e ainda crescente desigualdade entre o ensino em escolas públicas e privadas; a segurança nas escolas é precária, a qualificação dos professores é deficiente, o reconhecimento dos profissionais da educação é baixo e eivado de preconceitos.

É ainda mais notável a inércia observada no desenvolvimento da educação moral e social. Em regra, a escola se dedica estritamente a conteúdo e não à formação de valores e habilidades. A escola prepara para o vestibular e para a competição capitalista.

A construção de uma sociedade livre e igualitária esbarra tanto na ignorância imperante, quanto no egoísmo e no autoritarismo dos grupos que secularmente dominam a economia, o estado e os governos, sempre relutantes ao desenvolvimento humano e à educação libertadora.

O espiritismo contribui com a agenda para a educação social em vários aspectos, tanto metodológicos quanto conceituais.

Metodologicamente, a visão espírita da imortalidade reforça a estratégia educacional centrada no ser humano (em especial o respeito à sua individualidade e ao desenvolvimento de suas habilidades naturais) e na sua existência em sociedade.

Do ponto de vista conceitual, o espiritismo oferece bases sólidas para a educação inclusiva, solidária, voltada para o bem comum, instrumentos essenciais para as pessoas, as famílias e as escolas construírem um mundo melhor. O estudo da ética e da moral que se encontra na terceira parte de O livro dos espíritos pode ser lido como uma agenda de educação ética, moral e social. São muitos os elementos pedagógicos ali presentes, podendo-se destacar, a título de exemplo: a liberdade de pensamento e ação para todos (Lei de liberdade), a superação do egoísmo e do orgulho (Lei do progresso), a igualdade de direitos entre homem e mulher e a redução da desigualdade das condições sociais (Lei de igualdade), o respeito a todos os seres humanos, a vida em família e a vida social como necessidades do espírito (Lei de sociedade), entre outros tópicos, todos tratados com objetividade e modernidade por Kardec em sua principal obra.

A agenda para educação social é urgente. Menos divisão, menos egoísmo, mais solidariedade e respeito, são essenciais à nossa sobrevivência. Nesse contexto, a presença das teses espíritas na construção de novos modelos educacionais é essencial.


Márcia – veja se consegue por as referências no final




1 Advogada, Presidente da CEPA Associação Espírita Internacional, autora do livro Criminalidade: Educar ou punir (CPDoc), mora em São Paulo.

2 Professor universitário, Diretor Administrativo da CEPA, autor do livro Centro Espírita: uma revisão estrutrutural (CPDoc), mora em São Paulo.

3Hippolyte Léon Denizard Rivail, Textos Pedagógicos. 1ª Ed. São Paulo. Comenius, 1998, p. 19.

4 Allan Kardec, O livro dos espíritos, comentário à questão 685.

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