SUGESTÕES POLÍTICAS E SOCIAIS EM O LIVRO DOS ESPÍRITOS - Jornal Abertura de dezembro de 2017

Muitos espíritas alegam que espiritismo e política não se misturam. Que os espíritas devem ser neutros perante questões de natureza política e social. Normalmente fundamentam a tese da neutralidade em tais temas baseados no estatuto da sociedade parisiense de estudos espíritas, fundada por Allan Kardec, que vedava a discussão de temas políticos em suas atividades. Segundo o artigo primeiro do referido regulamento:

A Sociedade tem por objeto o estudo de todos os fenômenos relativos às manifestações espíritas, e sua aplicação às ciências morais, físicas, históricas e psicológicas. As questões políticas, de controvérsia religiosa e de economia social, nela são interditadas”

No entanto, o espiritismo foi fundado por Allan Kardec em um período histórico de grandes agitações. Para termos clareza deste fato, basta lembrar que o nascimento do espiritismo em 1857 situou-se entre a revolução francesa de 1789, com seus ideais de igualdade, liberdade e fraternidade, e a comuna de Paris, em 1871, primeira revolução operária a tomar o poder na cidade de Paris, revolução que foi violentamente derrotada.

Quando abrimos, portanto, O Livro dos Espíritos, ali encontramos várias teses de caráter político e social. Se não encontramos um livro partidário no sentido de tomar partido no que diz respeito às disputas pelo poder daquele momento histórico, encontramos uma obra que abrange várias questões relevantes, próprias daquele período histórico, mas que de forma geral representam problemas sociais universais ainda vigentes na atualidade.

O Livro dos Espíritos não é um livro metafísico que busca descolar o homem de sua realidade concreta. Observamos na obra inaugural da filosofia espírita a discussão de vários temas importantes. Questões como liberdade de pensamento, igualdade da mulher, direito de propriedade, organização e justiça social e muitas outras ali estão presentes através de uma reflexão avançada tanto da parte dos Espíritos quanto de Allan Kardec.

Portanto, é incorreto dizer que O livro dos Espíritos é um livro neutro em questões de natureza política. De modo algum. É um livro que se posiciona corajosamente sobre vários assuntos. Por exemplo, a questão da escravidão. Muitos países à época ainda eram escravagistas e o Livro dos Espíritos condena a escravidão. Para bem entendermos a importância deste posicionamento na obra espírita, é necessário termos em mente que a escravidão não era apenas uma questão moral, mas um problema de caráter econômico, ou seja, havia toda uma estrutura econômica em vários países, inclusive no Brasil, assentada sobre a base escravagista. Mas, o espiritismo, em seu livro fundamental, não se omitiu, se posicionou, certamente contrariando interesses poderosos.

Outro exemplo interessante é a visão crítica que encontramos em O Livro dos Espíritos sobre o direito de propriedade. Os Espíritos, em sua visão crítica da propriedade, afirmam, no melhor estilo de Proudhon, que muitas vezes a propriedade é produto “da astúcia e do roubo”. No período de elaboração do espiritismo, século XIX, a França estava no processo inicial de seu desenvolvimento capitalista, no qual a acumulação de bens, muitas vezes a qualquer custo, era o valor social a ser seguido. Mesmo assim os Espíritos criticam a propriedade adquirida em prejuízo dos outros, através da exploração dos mais fracos e da desonestidade. Os Espíritos chegam a falar em “necessário e supérfluo” no que diz respeito a posse de bens materiais. Existe alguma coisa mais anticapitalista do que esta distinção, quando consideramos que o capitalismo nos induz ao consumo do supérfluo?

Kardec e os Espíritos enfrentam várias questões oferecendo um norte para o que podemos chamar de pensamento social espírita. Não é por acaso que ao longo da história do espiritismo surgiram vários pensadores espíritas que refletiram sobre as questões políticas e sociais com profundidade como Léon Denis, Manuel Porteiro, Humberto Mariotti, Herculano Pires e muitos outros.

Infelizmente, o espiritismo ao tornar-se uma religião perdeu muito deste aspecto filosófico combativo, inclusive, em relação às questões da sociedade. O espiritismo tornou-se uma doutrina apolítica, intimista, distanciada das questões da sociedade e do mundo, pela qual se espera a “salvação” nas esferas de “nosso lar” e outras regiões espirituais. E as instituições espíritas, de forma geral, também foram por este caminho. Tornaram-se igrejas e não escolas de pensamento para educação integral do espírito.

Ricardo de Morais Nunes, Presidente do CPDoc (Centro de Pesquisa e Documentação Espírita)

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