Olhando à nossa volta, onde quer que estejamos; em casa, no trabalho, na rua, no prédio, na associação beneficente, no parque, no centro espírita, na igreja, no teatro, no cinema, na escola, não importa o lugar, sempre vamos ver, ouvir ou sentir algo com o que não concordamos. Não há um único lugar sobre a terra em que duas pessoas veem, sentem e pensam as coisas da mesma forma. Por mais que estejamos irmanados no mesmo ideal, ainda que estejamos trabalhando no desenvolvimento de um projeto construído conjuntamente, não estamos, absolutamente, de acordo em tudo.

Definitivamente, somos diferentes. E a diferença é fundamental para dar graça à vida, pois não teria nenhum sentido apenas repetir o que o outro faz, perpetuar um costume, um jeito de ser, de vestir-se, de postar-se; enfim, congelar o conhecimento. É a diferença que nos alerta para outras possibilidades, desperta nossa curiosidade, impulsiona a nossa mudança; em resumo, a disparidade, o desequilíbrio, a desarmonia das ideias nos fazem crescer.

Paradoxalmente, no entanto, repudiamos as diferenças, pelo menos aquelas que provêm de pessoas, aos nossos olhos, inferiores a nós. O menos bonito, o menos intelectual, o menos abastado, o menos reconhecido, o menos festejado, todos os seres humanos que “valem menos” por algum ângulo da nossa turva visão, não merecem o nosso completo respeito.

E, para que não reste qualquer dúvida a respeito da nossa insatisfação com o outro ser humano, o de cima também nos incomoda. Talvez por inveja, por insegurança, por falta de confiança em nosso potencial, temos dificuldade para identificar o valor que promoveu o outro; então, nossos olhos ficam grandes para alcançarmos toda e qualquer possibilidade de “justificar” o sucesso do outro sem reconhecer o grande valor daquele ser.

Considerei necessário fazer esta reflexão para tentar compreender o motivo de estarmos sempre de olhos nos defeitos das coisas e das pessoas. Sempre levamos em consideração os vícios, erros e desacertos para, em regra, avaliarmos nossos professores, nossos chefes, nossos prefeitos, governantes ou presidentes, nossas autoridades, vizinhos, amigos, maridos e mulheres, pais, filhos e irmãos.

É bem verdade que muitas vezes reconhecemos algum valor no outro, mas, predominantemente, o foco são as suas fragilidades.

Talvez a explicação para esta peculiaridade humana pudesse ser encontrada se nós entendêssemos que vemos no outro o que somos e, portanto, refletimos nos outros os nossos sentimentos, valores e emoções.


A filosofia espírita oferece contribuição especialmente significativa para melhorar a nossa relação com o outro, revelando-nos a importância do humanismo no seu domínio ético. Tendo a pessoa potencial para criar valores morais, definidos a partir das exigências concretas, psicológicas, históricas, econômicas e sociais, que condicionam a vida humana, a melhor proposta parece estar no investimento incansável nas pessoas. A filosofia espírita exalta o humano, trabalha com a sua realidade, a sua existência e concretude.

Como no entender kardecista o espírito prossegue seu projeto de crescimento para além da morte física, nós espíritas deveríamos estar ainda mais comprometidos com a missão de proporcionar a melhora das pessoas, trabalhando pelo seu engrandecimento sob todos os aspectos. Evidentemente, de nós mesmos em primeiro lugar.

Olhar como a vida funciona em nossa casa, em nosso trabalho, em nosso prédio, pode ajudar a compreender que o progresso não se opera senão paulatinamente em todos os campos, exatamente como ocorre com a ciência, que leva dezenas de anos para proclamar uma descoberta; às vezes, centenas de anos. Bem por isso a promoção da educação em sua maior dimensão é tarefa inadiável.

Não pode haver maior fonte de aprendizado do que a lei natural, bastando pensar na reencarnação a nos oferecer infinitas oportunidades para refazer o processo, recomeçar o caminho, rever conceitos. Mas, embora a lei natural da evolução nos empurre para a frente, para o novo, para a superação, muitas vezes nos detemos no antigo, presos a convicções cristalizadas e sem abertura para enxergar o novo, o outro, a vida.

Então, fazemos um mundo paradoxal; no qual os humanos mais geniais não sabem desfrutar as simples experiências do cotidiano; os afortunados muitas vezes desistem de tudo para vagar pela vida, o desnudo e desprovido do essencial, sorri e canta, celebrando a vida.

Há o axioma de que a virtude está no meio, que remete à média, que sugere mistura.

E se as pessoas se misturassem? E se não existissem bons e maus, lindos e feios, ricos e miseráveis, e se nós conseguíssemos vivenciar a experiência da troca, será que ficaríamos satisfeitos?

Jacira Jacinto da Silva é Juíza de direito em São Paulo, espírita de nascimento, membro do CPDoc e da CEPABrasil, cofundadora da Fundação Porta Aberta.

Os artigos desta coluna baseiam-se em estudos e pesquisas desenvolvidos pelo CPDoc. www.cpdocespirita.com.br / Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

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