Eugenio Lara

Em diversas oportunidades Allan Kardec declara que o Espiritismo é uma questão de bom senso. Segundo ele, é aí, também, que reside a sua autoridade e robustez: “Sua força está na sua filosofia, no apelo que dirige à razão, ao bom senso”. ( O Livro dos Espíritos, Conclu-são, item VI – FEB).

A questão do bom senso está sempre presente no pensamento de Allan Kardec. Isso pode ser detectado e observado na leitura de toda a Kardequiana. Mas, afinal, o que é esse bom senso de que o fundador do Espiritismo e os espíritos tanto falam?

Podemos começar a entender o que é esse bom senso no contexto kardequiano ao compreendermos que ele não é o “senso comum” usado no cotidiano pelas pessoas. Por se tratar de um conjunto de conhecimentos acumulados por determinado grupo social, o senso comum é cultural, baseado na tentativa e no erro. Não é científico, não é filosófico.

O senso comum produz espontaneamente um critério de verdade aceito por determi-nado grupo, herança dos costumes, sem que haja a reflexão, apenas segue-se a tradição, vari-ando de cultura para cultura porque possui enraizamento cultural, social.

Já o bom senso exige reflexão, racionalidade. O critério de verdade eleito pelo bom senso está associado à reflexão filosófica, ao livre-pensar, ao uso da razão e da intuição, onde a intuição deve estar a serviço da razão e não o inverso. É por isso que o Espiritismo é uma doutrina racional, onde o bom senso exerce lugar de destaque.

O bom senso de Kardec é semelhante ao cartesiano. No Discurso do Método, o grande filósofo francês René Descartes inicia suas reflexões justamente sobre essa questão. Segundo ele, o bom senso “é a coisa mais bem distribuída do mundo” porque é igual em todos os ho-mens. Descartes define o bom senso como “o poder de bem julgar e de distinguir o verdadei-ro do falso”. Bom senso é sinônimo de razão.

Conceito semelhante desenvolve Allan Kardec em suas reflexões, onde o bom senso e razão são inseparáveis. Não existe razão sem bom senso e nem bom senso sem razão. Razão,


lógica e bom senso são um trinômio inseparável no pensamento de Kardec, porque para ele o Espiritismo representa um pensamento peculiar, com identidade própria, que satisfaz, ao mesmo tempo, “à razão, à lógica, ao bom senso e ao conceito em que temos a grandeza, a bondade e a justiça de Deus” (...) pela fé inabalável que proporciona.” ( O Céu e o Inferno, cap. I, segunda parte, item 14 – FEB).

Segundo Allan Kardec, para se avaliar o valor, a qualidade dos Espíritos, “não há ou-tro critério senão o bom senso”. “Absurda será qualquer fórmula que eles próprios deem para esse efeito e não poderá provir de Espíritos superiores”, conclui. (O Livro dos Médiuns, cap. XXIV, item 267 – FEB).

Quem julgará as interpretações diversas e contraditórias fora do campo teológico? – pergunta Kardec em Caracteres da Revelação Espírita. Ele mesmo responde: “O futuro, a lógica e o bom senso”. ( A Gênese, cap. I – 29 – FEB).

Na primorosa introdução de O Evangelho Segundo o Espiritismo, acerca da análise de informações e conceitos oriundos dos Espíritos, Kardec é bem taxativo: devem ser rejeitados quando entrem em contradição “com o bom senso, com uma lógica rigorosa e com os dados positivos já adquiridos, (...) por mais respeitável que seja o nome que traga como assinatura”. (FEB – grifo meu).

Não foi à-toa que o grande astrônomo Camille Flammarion, em discurso fúnebre profe-rido no enterro do mestre lionês, chamou Allan Kardec de “O Bom Senso Encarnado”:

“Razão reta e judiciosa, aplicava sem cessar à sua obra as indicações íntimas do senso comum. Não era essa uma qualidade somenos, na ordem de coisas com que nos ocupamos. Era, ao contrário – pode-se afirmá-lo – a primeira de todas e a mais preciosa, sem a qual a obra não teria podido tornar-se popular, nem lançar pelo mundo suas raízes imensas”. ( Obras Póstumas – FEB).

Eugenio Lara , arquiteto e designer gráfico, é membro-fundador do Centro de Pesquisa e Documentação Espí-rita, editor-fundador do site PENSE – Pensamento Social Espírita e autor de Breve Ensaio Sobre o HumanismoEspírita. Publicou também em edição digital os seguintes livros: Racismo e Espiritismo, Milenarismo e Espiri-tismo, Amélie Boudet, uma Mulher de Verdade - Ensaio Biográfico, Conceito Espírita de Evolução e Os Qua-tro Espíritos de Kardec.

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