Coluna do CPDoc

Cosmopolitismo ou choque de civilizações?

José Rodrigues

Conta-me familiar que atua em escola pública de Londres episódio recorrente no mundo. Para integrar as crianças, oriúndas de diferentes religiões, foi programada visita a uma igreja evangélica, ocasião em que seria gravada música de temática universal, com todas as vozes. Marcada para o período da tarde (as crianças freqüentam dois períodos), à hora do almoço, as mães e pais de origem muçulmana retiraram seus filhos, praticamente esvaziando a visita, para desgosto da diretora.

Esse microcosmo, desde cedo semeado, não encontra barreiras no tempo. Sem pretender estigmatizar-se este ou aquele profitente, porquanto ao longo da história, também cristãos de várias vertentes, e judeus, defenderam e defendem crenças, territórios e patrimônios, está em análise a divisão entre os seres humanos, sob um pretenso argumento divino. Não é por menos razão que Deus esteja no palco, hoje, como nunca, visto por analistas ávidos por comprovações, exigências, coerências, tanto quanto atacado pela fragilidade de argumentação de seus apoiadores.

O tema “religião”, que interessa sob o aspecto sociológico, foi objeto de um debate entre os professore Samuel Huntington, da Universidade de Harvard (EUA) e Anthony Giddens, da London School of Economics (Londres), na Itália, em 2003. Huntington defende o pensamento de que há “um choque de civilizações”, referindo-se às diferenças entre o Ocidente e o Oriente Médio, enquanto Giddens não crê que o principal conflito da nossa era seja o embate entre civilizações, mas o que opõe o cosmopolitismo ao fundamentalismo.

Segundo ainda o professor de Harvard, influente cientista político da atualidade, “Em termos globais, religião e nacionalismo tendem a caminhar de mãos dadas: os povos mais religiosos tendem a ser também os mais nacionalistas”. O mesmo cientista citou a revista The Economist (Londres), de 2000, que identificou 32 grandes conflitos em andamento no mundo, dos quais dois terços envolviam muçulmanos combatendo muçulmanos, ou muçulmanos combatendo não-muçulmanos.

Giddens, ao atacar o fundamentalismo, amplia-o: “não apenas o islâmico, não somente os religiosos, mas também os de caráter étnico e nacionalista. A meu ver os fundamentalistas são sujeitos que afirmam só haver um modo de vida válido e que pensam que os demais têm de


sair da frente. Nesse sentido, eu diria com muita firmeza – e até de forma apaixonada – que o Ocidente ainda é o Ocidente”. (*)

Identificam os debatedores que tem havido um aumento da religiosidade no mundo, com mais carga para os Estados Unidos e menos para a Europa. Trata-se, no entanto, de uma religiosidade que chamo de corporativa, no sentido grupal, de sobrevivência socioeconômica. Ao mesmo tempo, enquanto os fundamentalistas islâmicos prometem o paraíso aos homens e mulheres-bomba, os evangélicos estão ‘vendendo’ o Reino dos Céus pelo ‘êxito’ de seus

negócios, a compra de carros importados, viagens ao exterior e outras ilusões. Que religiosidade é essa? Quanto vale o mercado da fé?

Há, pois, um longo esforço à frente, para expansão da tese espírita, cujo conteúdo universalista pode avançar sem limites, desde que posta em sua dinâmica filosófica e científica de origem. Allan Kardec admitiu que o espiritismo poderia até ser um auxiliar das religiões, na medida em que serviria de base para explicar e fundamentar seus fenômenos. Claro que, o segundo ato desta peça seria a destruição dos milagres e das crendices, do profissionalismo religioso e da venda de indulgências, na medida da dispensa de intermediários entre o Alto e a terra. E o melhor, das separações e conflitos.

E lá chegaremos, na Era do Espírito, com o fim das religiões, quando conviveremos sob princípios humanistas, e se Deus ainda houver, que seja o mesmo para todos.

(*) “Mais!” (FSP, 07/03/2004).

José Rodrigues, jornalista, integra o Centro Espírita Allan Kardec, de Santos, é um dos coordenadores do site Pense – Pensamento Social Espírita – www.viasantos.com/pense

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