Coluna do CPDoc

ESPIRITISMO: HISTÓRIA E PODER (1938 – 1949)

Saulo de Meira Albach

O professor Fábio Luiz da Silva, curitibano radicado em Londrina (PR), publicou recentemente “Espiritismo: História e Poder (1938 – 1949)” (EDUEL – Editora da Universidade Estadual de Londrina), fruto de suas pesquisas no mestrado do curso de História na Universidade Estadual de Londrina.

A pesquisa aborda a versão espírita da história produzida durante as décadas de 1930 e 1940. Dois livros espíritas nortearam o trabalho: A Caminho da Luz, de Emmanuel e Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, de Humberto de Campos.

Para felicidade do CPDOC, Fábio apresentou seu trabalho ao grupo em 2004 (em Santos) e agora em 2006 (em Curitiba), ao lançar o livro.

O importante estudo analisa com percuciência a construção de um discurso legitimador das práticas de um grupo de espíritas que pretendeu (pretende) ser hegemônico e a relação deste discurso com o contexto social e político da época em que foi produzido. Mostra como os livros citados, e principalmente o segundo, foram usados para legitimar o discurso centralizador e excludente adotado pela Federação Espírita Brasileira (FEB).

Fábio Luiz considera o livro de Humberto de Campos “como base da estratégia de legitimação, que respondeu a todas as exigências do momento. Diante dos grupos concorrentes no próprio movimento espírita, a FEB utilizou certamente o conteúdo da obra para obter reconhecimento e autoridade. A lógica é simples: o livro narra uma história que é toda pré-determinada pelos “espíritos superiores” e acrescenta a ela a história da própria FEB. O surgimento da Federação Espírita Brasileira obedeceria, portanto, determinações do próprio Cristo, com a finalidade de implantar aqui o Evangelho. Sendo assim, não é legítima qualquer outra instituição espírita que não esteja subordinada à FEB.” (op. cit., p. 125)

Outro enfoque da pesquisa mostra como há pontos de contato ideológicos entre a visão da construção da história do Brasil dirigida pelo próprio Cristo com os objetivos da política centralizadora de Getúlio Vargas e da própria Federação Espírita Brasileira.


Fábio sustenta, ainda, como esta visão espírita da história serviu para legitimar o Espiritismo perante a sociedade. Os atritos com a Igreja e com a Medicina foram amenizados em face da assunção de uma postura evangélica e religiosa. “Ser reconhecido como religião cristã era fundamental, pois respondia às críticas da Igreja e definia uma fronteira clara em relação aos cultos afro-brasileiros.” (op. cit., p. 88) O passe e outras formas de terapia eram enquadrados como atos de fé, e assim tais práticas não poderiam ser perseguidas sob pena de violação à liberdade de crença.

Interessante a relação feita pelo pesquisador entre a obra de Fernando Ortiz, intelectual cubano que realizou uma conciliação da obra de Cesare Lombroso e Nina Rodrigues, para combater as práticas africanas existentes em Cuba, como forma de civilizar o país, ao mesmo tempo em que defendia a obras de Allan Kardec. Vem daí, em parte, o preconceito que boa parte dos espíritas ainda nutre em relação aos cultos afro-brasileiros.

A relação entre o Espiritismo e o Estado também é abordada de forma muito feliz, ressaltando que apesar de pregar a neutralidade político-partidária, evitando atritos com a máquina do Estado, a FEB deixou clara sua posição política contrária ao Comunismo, favorável ao Capitalismo. No livro (Brasil, Coração do Mundo) há citação expressa a respeito do tema, à qual se reporta o historiador londrinense.

Após inúmeras referências a obras, autores e fatos pitorescos, Fábio Luiz conclui seu texto de forma brilhante:

“Finalmente, é necessário lembrar que a história do Espiritismo no Brasil não terminou em 1949 e que a visão espírita da história apresentada em Brasil, Coração do Mundo e Pátria do Evangelho e A Caminho da Luz pode não ser a única dentro do movimento espírita. A vitória da FEB com a assinatura do “Pacto Áureo”, como toda vitória no universo das representações, foi temporária e limitada. Conflitos internos e externos continuaram e continuam a existir, forçando cada participante desse jogo a atualizar seus discursos com a finalidade de enfrentar novos desafios.”

Certamente o livro não será vendido nas livrarias das federações estaduais, nem na maioria das casas espíritas pouco afeitas a obras que abordam temas “sagrados” ou que se tornaram “dogmas”. Mas àqueles que não se furtam ao estudo sério da construção do Espiritismo em nosso país o livro é fundamental, para adquirir o livro entre em contato com o autor Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

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